26 de maio de 2010

Um texto que teria gostado de saber escrever

MARCELO COELHO

Ideias para piorar o trânsito

Tanques, caminhões, carros blindados: há uma espécie de militarização visual da vida urbana


DESDE O TEMPO em que eu andava de patinete (mas não me lembro de ter andado de patinete), ouço a teoria de que é preciso estimular o transporte coletivo. Que o trânsito só vai ter solução quando as pessoas deixarem o carro em casa.

Depois de crescido, tornei-me um daqueles que não vão a pé nem para comprar pão na padaria da esquina (mas não costumo ir à padaria).

Percebi logo a vantagem imensa de andar de carro, mesmo num congestionamento: é a sensação de privacidade, de proteção, o que mais me prende ao uso do automóvel.

"Nunca saí de casa sem ter levado porrada"" disse o escritor Pedro Nava, num momento de amargura. Embora isso também aconteça com quem dirija, há um pouco mais de segurança dentro de nossa armadura individual, feita de ferro e borracha, blindada ou não, mas sempre sobre rodas.

Os anos Lula serão lembrados, no futuro, entre outras coisas, como aqueles em que a classe alta adquiriu o gosto por dirigir caminhões e tanques de guerra.

Antigamente, o status social se media pelo comprimento dos automóveis: limusines, galaxies, rabos de peixe.

Hoje, talvez com mais coerência, o status se mede pela altura. Pajeros, Land Rovers e coisas parecidas circulam pelo asfalto das cidades, como se desbravassem amazônias já desmatadas. Alguém, que não consigo ver, me ignora do alto da cabine.

E me impede de ver, também, se o sinal lá na frente mudou de cor, se há algum carro enguiçado na esquina ou mesmo se, dentro do próprio caminhão do qual me aproximo com cuidado, existe um motorista.

Tanques, caminhões ou carros blindados (mas o meu carro é blindado também), não importa: há como que uma ruralização, que também é uma militarização, visual da nossa vida urbana.
Os carros já tinham prioridade sobre o pedestre. De uns tempos para cá, o cenário das cidades vai deixando de ter até aparência civil.

Para diferenciar-se do motoqueiro plebeu, os pilotos de Harley Davidson e outras máquinas usam capacetes da Segunda Guerra. Jovens, mesmo os mais pacíficos, aderiram aos coturnos e se cobrem com rebites de metal.

Não por acaso, são os manobristas e os seguranças quem mais parecem seguir o figurino clássico (paletó e gravata) do cidadão "de bem". Esqueci-me dos políticos, mas vá lá. Muitos burgueses -no velho sentido de "habitantes do burgo"- vestem-se hoje como lenhadores ou sitiantes.
Leio agora que a prefeitura pretende proibir o estacionamento na maior parte das ruas do chamado "centro expandido" Aprovo a medida, como um fumante que torcesse pela proibição do cigarro nos restaurantes ou um alcoólatra entusiasta do uso do bafômetro.

Sou viciado em andar de carro e sei do pequeno efeito das campanhas de cidadania sobre mim. Convenci-me de que o mero estímulo ao uso do transporte coletivo (mesmo se fosse facílimo e de boa qualidade) não mudaria a atitude das pessoas como eu.

Não é que o transporte público deva melhorar apenas. A vida de quem recorre ao transporte individual é que vai ter de piorar (ainda mais) para que um bom número de automóveis fique na garagem.

Eis, aliás, um fenômeno que comprova as velhas leis da oferta e da procura, assim como a crença liberal na "mão invisível do mercado": conheço pessoas que já desistiram de ter carro em São Paulo.

Adaptam a vida a uma área menor da cidade, andam a pé, pedem carona, aprendem o trajeto de um ônibus e o caminho da melhor calçada. Num passe de mágica, o inferno do trânsito deixou de lhes dizer grande respeito.

Invejo-os, como um drogado que admira os recuperados do seu vício.

Tenho esperanças, assim, na proibição do estacionamento nas ruas de São Paulo -mais justa, aliás, que a ideia do pedágio urbano. Não porque vá melhorar o trânsito. Mas porque tornará mais cara e difícil a vida do motorista.

Também torço pela derrubada do minhocão. Quem sabe um trenzinho silencioso, entre canteiros verdes, recompensasse com beleza a vida dos que moram com o nariz naquele elevado.

A medida pioraria o trânsito? Bem provável que sim. Mas talvez o trânsito deva mesmo ser piorado. Quem sabe é a dose que me falta para abandonar o vício.

coelhofsp@uol.com.br

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