3 de julho de 2016
9 de janeiro de 2011
A Herança maldita
BRASÍLIA - Tem toda a razão Fernanda Torres ao dizer que "ser considerado parte da elite virou ofensa das mais graves" e em seguida perguntar: "Mas quem é a elite?".
Os bancos, que nunca lucraram tanto, as empreiteiras, eternamente gratas a Lula, a oligarquia, recheada de ministérios? Ou as levas de petistas em todos os escalões?
Há inclusive a elite enxovalhada por Lula e pelos lulistas radicais sempre que lhes falta explicação para alguma peraltice tipo mensalão. Aí, a elite somos nós, que damos um duro danado, ganhamos a vida honestamente, temos apreço aos princípios e exigimos moralidade e exemplo dos governantes.
Hoje, nada encarna melhor a neoelite que o time de Ronaldinhos de Lula -os Lulinhas. Os meninos são uns craques. Entraram pobres em 2003 e saem com seis empresas em 2011, um deles vivendo em apartamento de R$ 12 mil mensais pagos por empresário com contratos, ora, ora, com o governo do pai.
Não se pode discordar de Nelson Jobim quando ele diz que é "ridícula" a crítica a Lula por usar dependências militares para veraneio depois da Presidência. Também não é totalmente absurda a fala de Marco Aurélio Garcia de que um passaportezinho diplomático a mais ou a menos não faz mal a ninguém, referindo-se ao passaporte exclusivo de autoridades que Lulinhas sacaram no último dia do governo.
São, sim, coisas menores. O problema é a cultura, a soma do veraneio, dos passaportes, da Gamecorp, dos padrinhos, dos atos assinados à sombra, das empresas, do aluguel pago pelo amigo. O resultado é que Lula se sente dono do Brasil, acha que os filhos têm de aproveitar a "oportunidade" e desconsidera o exemplo que ele dá à nação como mito, como ídolo que é.
Se o presidente pode, a ministra da Casa Civil pode, o amigão Sarney pode, todo mundo pode. É educativo. Ou melhor, deseducativo.
Nunca antes neste país se viu uma herança tão maldita.
ELIANE CANTANHÊDE
Trânsito, quem se envolve em mais acidentes?
O jornal Folha de São Paulo divulga estudo sobre acidentes de transito, identifica qual o perfil dos motoristas que mais se envolvem em acidentes de transito:
Homens sofrem mais acidentes que mulheres
Por profissão:
- Estudantes
- Médicos
- Advogados
- Arquitetos
- Corretores imobiliários
- Fazendeiros
- Bombeiros
- Pilotos de avião
- Politicos (será porque a maioria tem motorista?)
- Donas de casa
Os americanos estão recrutando alguns dos seus melhores estatísticos para saber quem é o sujeito que bate o próprio carro.
Se você está devendo dinheiro e é médico, esses especialistas em ciência do trânsito já olharão feio.
Se, além disso, você for um homem que costuma andar sozinho em carros grandes e alugados, meu amigo, os estatístico pedem desculpa, mas precisam dizer: você não tem carteira de motorista, você tem porte de arma.
Esse perfil é resultado da análise de milhões de casos em bancos de dados sobre acidentes de carro --americanos amam tanto estatísticas quanto carros, então era mesmo de se esperar que tivessem muito material disponível sobre o assunto.
VAI DEVAGAR, AMOR!
O preço dos seguros não mente: homens realmente se envolvem em mais acidentes do que mulheres. "Homens parecem particularmente perturbados por dois poderosos compostos: álcool e testosterona", diz o escritor americano Tom Vanderbilt, autor do livro "Por que dirigimos assim?" (Ed. Campus), sobre a ciência do trânsito.
Homens são mais agressivos no trânsito, correm mais. Por isso, um homem tem mais do que o dobro de chance de morrer dirigindo do que uma mulher, ainda que elas se envolvam mais em colisões não fatais -pequenas barbeiragens, digamos.
Os estatísticos descobriram, porém, que um homem dirigindo sozinho tem uma chance maior de se acidentar do que com uma mulher no banco de passageiros.
Ninguém sabe direito o motivo. Uma hipótese é que ele seja mais cuidadoso porque quer protegê-la. A outra, talvez mais provável, é que a mulher incomoda tanto o sujeito com gritos de "cuidado!" que ele se rende --ou para o carro e manda ela descer, em um cenário mais raro.
Esse fenômeno é tão sério que o Exército israelense resolveu treinar soldados do sexo feminino para atuar, nas palavras deles, como "tranquilizadoras" dos soldados homens em deslocamento e evitar mortes --não se sabe se eles ficaram exatamente "tranquilizados", mas o número de mortes caiu.
No que se refere a profissões, médicos, sejam homens ou mulheres, estão no topo do ranking das ocupações que mais se envolvem em acidentes feito por uma seguradora da Califórnia.
Eles só perdem para estudantes --aí mais pela idade. Jovens têm menos experiência e são mais irresponsáveis.
A explicação é que médicos, além de terem uma profissão estressante, com frequência dirigem com certa urgência entre um hospital e outro, talvez ao celular.
Ninguém soube explicar a altíssima quantidade de arquitetos envolvidos em acidentes, em quarto lugar. Depois de muito refletir, os pesquisadores só conseguiram levantar uma hipótese: vai ver eles se distraem olhando prédios e acabam batendo.
Corretores de imóveis talvez batam muito por motivo similar --e eles estão o dia inteiro se deslocando pela cidade, uma hora acontece.
No outro extremo, fazendeiros (que dirigem bastante em lugares sem movimento) raramente batem o carro.
Independentemente da profissão, gente endividada se envolve mais em colisões. "Você não apostaria na possibilidade de motoristas arrojados serem pessoas avessas ao risco que anseiam por rotina e tranquilidade na sua vida normal, não? É um mantra antigo: um homem dirige como vive", diz Vanderbilt.
As pessoas também batem mais carros alugados --elas são, óbvio, mais cuidadosas se o patrimônio for seu. Carros maiores batem mais do que pequenos, pois a sensação de segurança inspira menos responsabilidade.
Números assim fizeram o economista da Universidade de Chicago Sam Peltzman tentar explicar por que avanços de segurança (notoriamente a adoção dos cintos) não se transformaram em menos mortes no trânsito: as pessoas passaram a dirigir mais perigosamente.
"O aumento na segurança nos carros foi 'compensado' pelo aumento no índice de mortalidade de pedestres, ciclistas e motociclistas. Economistas têm uma velha piada: o instrumento mais eficaz de segurança nos carros seria um punhal instalado no volante e apontado para o motorista", diz Vanderbilt.
26 de maio de 2010
Um texto que teria gostado de saber escrever
Tanques, caminhões, carros blindados: há uma espécie de militarização visual da vida urbana |
DESDE O TEMPO em que eu andava de patinete (mas não me lembro de ter andado de patinete), ouço a teoria de que é preciso estimular o transporte coletivo. Que o trânsito só vai ter solução quando as pessoas deixarem o carro em casa.
Depois de crescido, tornei-me um daqueles que não vão a pé nem para comprar pão na padaria da esquina (mas não costumo ir à padaria).
Percebi logo a vantagem imensa de andar de carro, mesmo num congestionamento: é a sensação de privacidade, de proteção, o que mais me prende ao uso do automóvel.
"Nunca saí de casa sem ter levado porrada"" disse o escritor Pedro Nava, num momento de amargura. Embora isso também aconteça com quem dirija, há um pouco mais de segurança dentro de nossa armadura individual, feita de ferro e borracha, blindada ou não, mas sempre sobre rodas.
Os anos Lula serão lembrados, no futuro, entre outras coisas, como aqueles em que a classe alta adquiriu o gosto por dirigir caminhões e tanques de guerra.
Antigamente, o status social se media pelo comprimento dos automóveis: limusines, galaxies, rabos de peixe.
Hoje, talvez com mais coerência, o status se mede pela altura. Pajeros, Land Rovers e coisas parecidas circulam pelo asfalto das cidades, como se desbravassem amazônias já desmatadas. Alguém, que não consigo ver, me ignora do alto da cabine.
E me impede de ver, também, se o sinal lá na frente mudou de cor, se há algum carro enguiçado na esquina ou mesmo se, dentro do próprio caminhão do qual me aproximo com cuidado, existe um motorista.
Tanques, caminhões ou carros blindados (mas o meu carro é blindado também), não importa: há como que uma ruralização, que também é uma militarização, visual da nossa vida urbana.
Os carros já tinham prioridade sobre o pedestre. De uns tempos para cá, o cenário das cidades vai deixando de ter até aparência civil.
Para diferenciar-se do motoqueiro plebeu, os pilotos de Harley Davidson e outras máquinas usam capacetes da Segunda Guerra. Jovens, mesmo os mais pacíficos, aderiram aos coturnos e se cobrem com rebites de metal.
Não por acaso, são os manobristas e os seguranças quem mais parecem seguir o figurino clássico (paletó e gravata) do cidadão "de bem". Esqueci-me dos políticos, mas vá lá. Muitos burgueses -no velho sentido de "habitantes do burgo"- vestem-se hoje como lenhadores ou sitiantes.
Leio agora que a prefeitura pretende proibir o estacionamento na maior parte das ruas do chamado "centro expandido" Aprovo a medida, como um fumante que torcesse pela proibição do cigarro nos restaurantes ou um alcoólatra entusiasta do uso do bafômetro.
Sou viciado em andar de carro e sei do pequeno efeito das campanhas de cidadania sobre mim. Convenci-me de que o mero estímulo ao uso do transporte coletivo (mesmo se fosse facílimo e de boa qualidade) não mudaria a atitude das pessoas como eu.
Não é que o transporte público deva melhorar apenas. A vida de quem recorre ao transporte individual é que vai ter de piorar (ainda mais) para que um bom número de automóveis fique na garagem.
Eis, aliás, um fenômeno que comprova as velhas leis da oferta e da procura, assim como a crença liberal na "mão invisível do mercado": conheço pessoas que já desistiram de ter carro em São Paulo.
Adaptam a vida a uma área menor da cidade, andam a pé, pedem carona, aprendem o trajeto de um ônibus e o caminho da melhor calçada. Num passe de mágica, o inferno do trânsito deixou de lhes dizer grande respeito.
Invejo-os, como um drogado que admira os recuperados do seu vício.
Tenho esperanças, assim, na proibição do estacionamento nas ruas de São Paulo -mais justa, aliás, que a ideia do pedágio urbano. Não porque vá melhorar o trânsito. Mas porque tornará mais cara e difícil a vida do motorista.
Também torço pela derrubada do minhocão. Quem sabe um trenzinho silencioso, entre canteiros verdes, recompensasse com beleza a vida dos que moram com o nariz naquele elevado.
A medida pioraria o trânsito? Bem provável que sim. Mas talvez o trânsito deva mesmo ser piorado. Quem sabe é a dose que me falta para abandonar o vício.
coelhofsp@uol.com.br
7 de fevereiro de 2010
Da Folha
De Elio Gaspari na Folha de São Paulo
"A política de tarifas dos ônibus... é paleolítica. Nenhum concessionário dá desconto de fidelidade aos usuários. Em São Paulo a passagem de Metrô custa R$ 2,65. Se o cliente compra 50, fica por R$ 2,33. (Sobram R$ 16 para o McDonald's.)O Metrô do Rio prometeu esse tipo de desconto e quem acreditou fez papel de paspalho (inclusive o signatário). A Fetranspor carioca, que administra os altos interesses das empresas de ônibus, criou um RioCard, prometeu o programa de descontos e bobo foi quem acreditou (inclusive, de novo, o signatário)."
Uma reflexão interessante, é como é a nossa politica de tarifas local?
7 de janeiro de 2010
Janio de Freitas
A falta de interdição nas cidades favelizadas resultou em uma espécie de urbanismo criminoso |
COM O ATRASO denunciado em uma quantidade inqualificável de mortes, o prefeito de Angra dos Reis adota uma providência administrativa que o põe à frente dos mais de 5.000 prefeitos brasileiros, no que seja respeito ao próprio dever, coragem política e contribuição social. Tal medida de Juca Brandão é a que proíbe construções e ampliações em 15 morros de Angra.Ao menos até que as perícias de geotécnica manifestem-se sobre a segurança das áreas.
A falta de tal interdição nas cidades favelizadas, proveniente apenas da conveniência eleitoreira, resultou em uma espécie de urbanismo criminoso, que tantos administradores públicos têm praticado por tão longo tempo, com a permissão para o crescimento de favelas (formas de degradação da vida urbana) e para a especulação imobiliária (como degradação também da natureza).
Se não era possível conter a debandada rural para cidades grandes, sob auspícios das problemáticas oportunidades de ascensão econômica, um mínimo de orientação e racionalidade todos os administradores públicos de tais cidades e Estados deviam estabelecer, até por obrigação preliminar. Mas os novos conglomerados não foram vistos como acréscimos de gente, de pobreza e da necessidade de ação: aos olhos dos políticos, o que chegava e se instalava eram votos disponíveis.
A atitude das administrações não foi e não é, por acaso, uma tolerância por compreensão social, como pretendem tantos argumentos atenuadores dos problemas implícitos na favelização, pelo país todo? As condições deprimentes das favelas ("onde o Estado não entra", admitem os mesmos argumentos) têm as assinaturas daqueles todos que permitiram, ou permitem ainda, o seu surgimento indiscriminado e crescimento alucinado. Perversidade que segue, por si mesma, um processo de evolução sob as mesmas responsabilidades: favelas hoje são áreas também de especulação imobiliária, com a criação da indústria das lajes e da expansão sorrateira.
O "choque de ordem", que o recém-prefeito carioca Eduardo Paes tenta aplicar no Rio, demoliu como exemplo um vasto prédio que se alastrava em uma favela. O exemplo ficou para quem não mora em favela, lê jornal e assiste à TV: sobreposição de quatro, cinco andares, sobre bases precárias, e muitas delas expulsando ou sufocando vizinhos a poder de violências, continuam a subir. A indústria da laje é o enriquecimento, relativo, mas enriquecimento, à custa da subcondição favelada. Sempre sob o patrocínio da conveniência eleitoreira.
As vidas que correm risco ou se perdem com as ocupações sem critério, permitidas porque ricas ou porque pobres, não jamais foram as dos administradores públicos.
Desenvolvimento Urbano
“ Urbanismo criminoso, que tantos administradores públicos têm praticado por tão longo tempo, com a permissão para o crescimento de favelas (formas de degradação da vida urbana) e para a especulação imobiliária (como degradação também da natureza)"
Jânio de Freitas – Folha de São Paulo
22 de outubro de 2009
Internet
De Elio Gaspari na folha de São Paulo
Segundo a União Internacional de Telecomunicações, o Brasil tem o serviço de celular mais caro do mundo. As operadoras respondem que isso é conseqüência de uma carga tributaria de 40 % sobre o valor da ligação. Tudo bem, tirando-se o 40 % do indicador de UIT, o minuto brasileiro sai pelo preço do argentino com os impostos e custa oito vezes mais que o indiano.
O Brasil tem 5,3 ligações de banda larga na internet para cada cem habitantes. A Argentina e o Chile têm 8,8. As leis do mercado fizeram com que o número de paulistas ligados à rede veloz (2,4 milhões) seja maior que o de todos os clientes das regiões Nordeste, Norte e Centro-Oeste (2 milhões). Metade dos municípios brasileiros está fora da rede.
16 de agosto de 2009
Historia de Roma


"ATÉ QUANDO , ó Catilina, abusarás da nossa paciência?", indagou Marco Túlio Cícero ao senador Lúcio Sérgio Catilina, a 8 de novembro de 63 a.C., em Roma.
O texto publicado por Frei Betto na Folha de São Paulo, mesmo com mais de 2000 anos de antiguidade, permanece absolutamente atual e vigente.
A versão completa do testo segue, em azul.
Calígula, desgostoso com o Senado, nomearia senador seu cavalo Incitatus, com direito a 18 assessores e um colar de pedras preciosas |
"ATÉ QUANDO , ó Catilina, abusarás da nossa paciência?", indagou Marco Túlio Cícero ao senador Lúcio Sérgio Catilina, a 8 de novembro de 63 a.C., em Roma. Flagrado em atitudes criminosas, Catilina se recusa a renunciar ao mandato.
Cícero, orador emérito, respeitado por sua conduta ética na política e na vida pessoal, pôs em sua boca a indignação popular: "Por quanto tempo ainda há de zombar de nós essa tua loucura? A que extremos se há de precipitar a tua audácia sem freio? Nem a guarda do Palatino, nem a ronda noturna da cidade, nem os temores do povo, nem a afluência de todos os homens de bem, nem este local tão bem protegido para reunião do Senado, nem o olhar e o aspecto destes senadores, nada disso conseguiu perturbar-te? Não sentes que os teus planos estão à vista de todos?".
"Ó tempos, ó costumes!", exclamou Cícero, movido por atormentada perplexidade diante da insensibilidade do acusado. "Que há, pois, ó Catilina, que ainda agora possas esperar, se nem a noite, com suas trevas, pode manter ocultos os teus criminosos conluios; nem uma casa particular pode conter, com suas paredes, os segredos da tua conspiração; se tudo vem à luz do dia, se tudo irrompe em público?"
Jurista, Cícero se esforçou para que Catilina admitisse os seus graves erros: "É tempo, acredita-me, de mudares essas disposições; desiste das chacinas e dos incêndios. Estás apanhado por todos os lados. Todos os teus planos são para nós mais claros que a luz do dia". Se Catilina permanecia no Senado, não era apenas a vontade própria que o sustentava, mas sobretudo a cumplicidade dos que teriam a perder, com a renúncia dele, proveitos políticos. Daí a exclamação de Cícero: "Em que país do mundo estamos nós, afinal? Que governo é o nosso?". Cícero não temia ameaças e expressava o que lhe ditava o decoro: "Já não podes conviver por mais tempo conosco; não o suporto, não o tolero, não o consinto. (...) Que nódoa de escândalos familiares não foi gravada a fogo na tua vida? Que ignomínia de vida particular não anda ligada à tua reputação? (...) Refiro-me a fatos que dizem respeito não à infâmia pessoal dos teus vícios, não à tua penúria doméstica e à tua má fama, mas sim aos superiores interesses do Estado e à vida e segurança de todos nós".
Os crimes de Catilina escancaravam-se à nação. Seus próprios pares o evitavam, como assinalou Cícero: "E agora, que vida é essa que levas? Desejo neste momento falar-te de modo que se veja que não sou movido pelo rancor, que eu te deveria ter, mas por uma compaixão que tu em nada mereces. Entraste há pouco neste Senado. Quem, dentre esta tão vasta assembleia, dentre todos os teus amigos e parentes, te saudou? Se isso, desde que há memória dos homens, a ninguém aconteceu, ainda esperas que te insultem com palavras quando te encontras esmagado pela pesadíssima condenação do silêncio?".
Catilina fingia não se dar conta da gravidade da situação. Fazia ouvidos moucos, jurava inocência, agarrava-se doentiamente a seu mandato.
"Se os meus escravos me temessem da maneira que todos os teus concidadãos te receiam", bradou Cícero, "eu, por Hércules, sentir-me-ia compelido a deixar a minha casa; e tu, a esta cidade, não pensas que é teu dever abandoná-la? E se eu me visse, ainda que injustamente, tão gravemente suspeito e detestado pelos meus concidadãos, preferiria ficar privado da sua vista a ser alvo do olhar hostil de toda a gente; e tu, apesar de reconheceres, pela consciência que tens dos teus crimes, que é justo e de há muito merecido o ódio que todos nutrem por ti, estás a hesitar em fugir da vista e da presença de todos aqueles a quem tu atinges na alma e no coração?"
Cícero não demonstrava esperança de que seu libelo fosse ouvido: "Mas de que servem as minhas palavras? A ti, como pode alguma coisa fazer-te dobrar? Tu, como poderás algum dia corrigir-te?". E não poupou os políticos que, apesar de tudo, apoiavam Catilina: "Há, todavia, nesta ordem de senadores, alguns que ou não veem aquilo que nos ameaça ou fingem ignorar aquilo que veem".
Acuado, Catilina se refugiou na Etrúria e morreu em 62 a.C. Cícero, afastado do Senado por Júlio César, foi assassinado em 43 a.C. Um século depois, Calígula, desgostoso com o Senado, nomearia senador seu cavalo Incitatus, com direito a 18 assessores, um colar de pedras preciosas, mantas de cor púrpura e uma estátua, em tamanho real, de mármore com pedestal em marfim.
CARLOS ALBERTO LIBÂNIO CHRISTO , o Frei Betto, 64, frade dominicano, é assessor de movimentos sociais e escritor, autor de "Calendário do Poder" (Rocco), entre outros livros. Foi assessor especial da Presidência da República (2003-2004).
15 de agosto de 2009
20 de abril de 2009
Do blog de Josias de Souza
Em azul o texto do jornalista Josias de Souza. Em quanto aqui
Na moita, Câmara libera obras sem licença ambiental
Em votação realizada na última quarta-feira, os deputados inseriram um artigo novo na medida provisória do Fundo Soberano.
A novidade passou como um detalhe, em meio a um debate que tinha como miolo a emissão de títulos públicos para despejar no Fundo Soberano R$ 14,2 bilhões.
Deve-se o “detalhe” ao relator da MP, José Guimarães (PT-CE). Autorizou a realização de obras rodoviárias sem a emissão de licença ambiental, uma exigência legal.
O texto clandestino foi injetado na peça original na altura do artigo 5º. Concede ao DNIT, órgão que cuida das rodovias, poderes inauditos.
Reza o artigo que o departamento do ministério dos Transportes fica dispensado de buscar o necessário licenciamento ambiental em três tipos de obras:
“Pavimentação”, “melhoramentos” e “adequação” de estradas. E, eis o pulo do gato, também nas obras de “ampliação da capacidade” de rodovias.
Significa dizer que o governo pode, quando bem entender, transformar uma estradinha de mão dupla numa grandiosa autopista sem dar atenção aos órgãos ambientais.
Ainda que as estradas “ampliadas” cortem pedaços da Mata Atlântica ou da selva Amazônica.
Manteve-se a exigência de licença ambiental apenas para a abertura de estradas novas. Ainda assim, com outro “detalhe”.
As autoridades ambientais terão 60 dias para se manifestar. Vencido esse prazo, as obras serão iniciadas. Mesmo que envolvam atentados ao meio ambiente.
O ministro Carlos Minc (Meio Ambiente) tentou evitar o descalabro. Em contato com deputados governistas, rogou que o inusitado artigo 5º fosse suprimido da MP.
Não lhe deram ouvidos. O contrabando empurrado para dentro da MP interessava à Casa Civil da ministra Dilma Rousseff, mais interessada em acelerar obras.
O PV, frágil representante da causa verde no Congresso, apresentou uma emenda para tentar derrubar o inaceitável. Foi esmagado pela maioria governista.
O PSDB voltou à carga. O líder tucano José Aníbal (SP) propôs que fosse suprimida da MP pelo menos a expressão “ampliação da capacidade” das rodovias.
Nessa hipótese, a licença ambiental seria dispensada só para obras de recapeamento de de estradas já existentes. O trator governista patrolou, de novo, a emenda tucana.
A muamba ambiental do Fundo Soberano está longe de ser um caso isolado. Na mesma quarta-feira, a Câmara produziu uma segunda velhacaria.
O relator João Leão (PP-BA) injetou numa MP que versava sobre Imposto de Renda um artigo que autoriza a União a repassar verbas para municípios inadimplentes.
Uma vez assinado o convênio, os repasses tornam-se obrigatórios. Mesmo que o prefeito atente contra a Lei de Responsabilidade Fiscal.
Crítico do excesso de medidas provisórias, o Congresso vem se servindo delas para converter absurdos
1. O presidente da República manda ao Legislativo uma MP tratando de tema específico;
3. Nesse projeto, são inseridos os “contrabandos”, que nada têm a ver com o propósito inicial da medida provisória;
4. Na hora de votar, os repórteres destacados para acompanhar a usina do plenário dão mais atenção ao miolo da picanha. E frangam a gordura.
As últimas MPs aprovadas na Câmara seguiram, com os contrabandos de cambulhada, para o Senado. Salvas as muambas, o tucano Aníbal cogita recorrer ao Judiciário.
Por ora, consolida-se a impressão de que, no Brasil, a Casa de leis, na hora de legislar, guia-se por uma lei maior: a Lei das Selvas, que tudo admite.
2 de março de 2009
28 de dezembro de 2008
Previsões para 2009
Cinco previsões 'infalíveis' para 2009. Pode cobrar!
1. Conforme alardeado por Lula, o Produto Interno Bruto crescerá 4% no próximo ano -desde que o percentual apurado não seja inferior;
2. É possível que Dilma Rousseff, a preferida de Lula, suba nas pesquisas. Isso, naturalmente, se ela não em(pac)ar nos níveis atuais ou decrescer;
3. Pode ser que José Serra prevaleça como candidato oficial do PSDB à sucessão de Lula, na hipótese de não perder a vaga para Aécio Neves;
4. Michel Temer (PMDB-SP) pode mesmo ser eleito presidente da Câmara, contanto que não perca a vaga para nenhum outro candidato;
5. No Senado, Tião Viana (PT-AC) pode virar presidente. Diante da divisão do PMDB, é possível que o candidato petista se torne um fator de unificação dos partidos -desde que não divida, colocando a vitória em risco.
Como se vê, excluídos os inúmeros fatores que, por imprevisíveis, não se pode prever, 2009 será um ano muito previsível.
Podemos acrescentar uma previsão local, a tarifa de ónibus em Joinville não deve aumentar, Claro que caso as planilhas das empresas mostrem diferenças entre preços e custos, deverá se produzir um aumento leve, abaixo porem do solicitado pelas empresas.
8 de dezembro de 2008
De Eliane Cantanhede da FSP
Ninguém pode ser responsabilizado pela tragédia que está fazendo Santa Catarina submergir sob a água, os escombros, a dor e uma centena de mortes. Não se trata de questão política, nem de administração. Mas há uma série de lições a se retirar.
A sensação para nós, os leigos, é que Sua Excelência, a Mãe Natureza, está enviando sinais de insatisfação. Já chacoalhou a Índia, a China, os Estados Unidos, o Caribe, entre outros, e está chegando ao Brasil, autoproclamado santuário com sol o ano inteiro e sem furacões e terremotos.
O sinal mais claro que a Natureza nos envia é que não se pode mais brincar com o aquecimento global e com as mudanças climáticas. Isso não é brincadeira. Não é tese de sonhador. Não é discussão para quem não tem o que fazer. Não é coisa para os inimigos das indústrias e do desenvolvimento. É, sim, questão de vida ou morte. Ameaça não apenas as futuras gerações e já começa a ameaçar a nossa, aqui, agora. Mundo, acorda enquanto é tempo!
No mais imediato, é possível concluir também que a Natureza gera a tragédia, e os homens completam. Como? Por exemplo, construindo cidades e povoados perigosamente perto dos rios, como é o caso em Santa Catarina, toda muito desenhada às margens do rio Itajaí. Basta somar chuvas torrenciais com maré alta, e lá se vão a segurança, as casas, as vidas.
Há, ainda, o perigo já sobejamente conhecido das encostas. Não precisa ser arquiteto, urbanista nem coisa nenhuma. Basta olhar para ver que uma inclinação acima de 20% torna qualquer habitação um perigo, no mínimo uma incógnita.
Se nós formos analisar detalhadamente, grande parte das mortes em tragédias assim vem por causa dos desabamentos, das casas que escorrem junto com a chuva, a lama e os seus donos.
As imagens de Santa Catarina são, literalmente, de chorar. Um Estado tão bonito, tão cheio de atrativos e tão cheio de gente linda que o Brasil exporta inclusive mundo afora. E assim, justamente na sua hora mais grandiosa, que é a chegada do Natal, do Ano Novo, do verão de praias maravilhosas e lotadas.
Uma grande ironia, aliás, é a nova revista de bordo da Gol: sua reportagem principal é justamente falando das maravilhas de Santa Catarina. Maravilhas que, hoje, estão debaixo d'água e entristecem todo o Brasil.
30 de novembro de 2008
Titulares desta semana

No meio da crise gerada pela catástrofe que se abateu sobre Santa Catarina, uma leitura rápida dos titulares da prensa destes dias.
- Municipios destruídos pela chuva em SC não têm mapeamento das áreas de risco.
- Blumenau já teve 32 inundações em 24 anos.
- Polícia limita acesso a áreas destruídas para evitar saques.
- Pessoas fazem fila para doar sangue.
- Turismo e agricultura contabilizam prejuízo.
- Após mais desabamentos, moradores são retirados à força de área de risco.
- Parentes enterram corpos no quintal.
- Após toque de recolher 3 são presos.
- Urbanista defende parâmetros rigidos - Para pesquisador da PUC-PR, cidades têm de se adaptar à intensificação das mudanças climáticas, que são mais fatais
- Após enchentes, cidades viram "lixão a ceu aberto"
- Ação em catástrofe nos EUA foi mais eficaz
- Vitimas relatam sofrimento, mas já planejam recomeço.
- Zeladora enfrentou três grandes enchentes
- Medico dorme três horas pro dia
- "Blumenau terá que ser reconstruida", afirma prefeito
- Para técnicos áreas de encostas devem ser isoladas
- Enchentes em Santa Catarina decorreram de neglicência em vários níveis. mas autoridades sempre recorrem à desculpa da "fatalidade"
- A semana mais triste
- No coração da tragédia
- Uma soma bem perigosa
- O tamanho da tragédia
- Hora de ajudar
- Resgate dramático
- Mais desvastadora que 1983
- Cresce conta das mortes
- A cada dia, mais e mais voluntários
- Apreensão no céu e na terra
- Depois do lodo, a burocracia permanece
- Não é de hoje
- As principais inundações entre 1859 e 2007
Da Folha de São Paulo

Do Jornalista Janio de Freitas do jornal Folha de São Paulo, transcrevo este texto,
vale a pena ler com atenção.
Desastres conservados
Já falam nos bilhões do prejuízo com a atual calamidade. Mas o que valem em comparação com uma casa perdida?
HÁ EXATOS 25 anos, um dos governadores recém-vitoriosos na primeira eleição sem restrições, ao apagar da ditadura, irrompeu na notoriedade nacional com o espetáculo de sua ação em uma calamidade feroz. Era a nova figura de Esperidião Amin, que se deparou, mal estreara, com os horrores da enchente gigantesca no mesmo Vale do Itajaí e cercanias agora vitimados. As providências de engenharia, para prevenir o desastre das vazantes excessivas, começaram a ser definidas ainda antes de baixadas as águas e logo asseguradas pelo governo federal (Santa Catarina não teria recursos para tanto).
No quarto de século decorrido desde então, as enchentes cumpriram com regularidade a sua programação anual, concedendo apenas na intensidade variável das suas perversidades. Mas, sempre, cada uma delas configurando a advertência do que poderia vir no ano seguinte. Assim atravessaram os dois anos finais da ditadura com Figueiredo, os dois anos de Collor, o mesmo de Itamar, cinco de Sarney, oito de Fernando Henrique e, já se pode dizer, seis de Lula.
Os ministérios incumbidos das obras mudaram de nome, cresceram nos bilhões das moedas que mudaram de nome, o regime mudou de nome, mudaram dezenas de nomes de ministros como se não houvesse nem um. E o legado de tudo isso foi manter em perfeitas condições as características topográficas, geológicas, fluviais e habitacionais adequadas a novas calamidades.
Já falam, por aí, nos imaginados bilhões do prejuízo com a atual calamidade. Mas o que valem esses bilhões em comparação com a casa perdida por uma família que dedicou tanto da vida a consegui-la, a dar-lhe os bens simplórios que nunca se completam? O custo da orfandade daquela criança, de qualquer criança, cabe nos bilhões do prejuízo citados pelos técnicos e pelos governantes? E os filhos esmagados, sufocados na lama, sumidos nas águas, que valor os técnicos e governantes dão à sua perda pela mãe, pelo pai? Ou não pensaram nisso?
Em proporções que só representam calamidade para os atingidos, e apenas um registro rápido nos noticiários, os desatinos da natureza repetem-se pelo país todo, o ano inteiro. Grande parte seria evitável ou poderia ser atenuada, muitos são objeto de velhos projetos preventivos, mas seguem se repetindo como se fossem uma fatalidade acima do poder humano. É que estão abaixo do poder dos interesses. Eleitorais, comissionais, negociais. Lidam com vidas irreconhecíveis, por não terem presença social, como classe.
No atual desastre catarinense, duas ilustrações resumem o governo. O ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, a quem caberia rápida reação já aos primeiros sinais da calamidade, foi de uma lerdeza muito expressiva, digna de um garçom baiano como ele. É até improvável que soubesse o que é e onde é o Vale do Itajaí. Lula, por sua vez, só ontem se dispôs ao esforço de dar um pulo em Santa Catarina. E assim mesmo porque também ontem recebeu duras críticas por sua distância apática. Críticas acompanhadas da observação de que essa é a sua conduta costumeira nas calamidades e tragédias.
1 de maio de 2008
Sobre o estado e o governo.

O professor de Historia da Universidade Federal de São Carlos ( SP) Marco Antonio Villa, em recento texto no jornal a Folha de São Paulo, faz a seguinte reflexão sobre o "Estado".
Transcrevo a seguir:
" ...falta estado no Brasil. Estado no sentido mais amplo, nem como comite central da burguesia, segundo a tradição marxista, nem como ente quase passivo, segundo o ultraliberalismo. Estado não é para ser gestor da miséria e do grande capital, como no governo Lula. Deve alavancar as mudanças socieais e economicas, garantir plenamente as liberdades e cumprir as leis. Em suma, deve ser o que nunca foi."
Vale a pena depois de ler o texto, refletir, sobre estado e governo em Joinville, como se misturam e se confundem, como o papel de estado, no nivel municipal não é cumprido, como a cidade fica orfa deste importante agente de desenvolvimento.
16 de março de 2008
O Brasil de faz-de- conta

O jornalista Gilberto Dimenstein, da Folha de São Paulo, escreve que " No Brasil, o aluno faz de conta que aprende e a escola faz de conta que ensina - O resultado final é a cidadania do faz de conta."
Ainda comenta no seu texto O país do faz-de-conta, que é impossível travar um debate sobre o desempenho de um governo se o eleitor não entende porcentagem ou um simples gráfico.
O quadro que se apresenta é resultado do nível de escolaridade e ainda do baixo capacidade dos brasileiros para lidar com números. Dos 127 milhões de eleitores, mais da metade não conseguiu o diploma de conclusão do ensino fundamental e deste total 8,2 milhões não sabem ler nem escrever.
12 de março de 2008
Aqui e lá

Em quanto a nossa prefeitura se empenha, com inusitado ardor e esforço em conseguir obter pareceres "independentes" e "isentos", que atendam a vontade incontrolável de derrubar 44 arvores na beira rio.
Na cidade de São Paulo, arquitetos, engenheiros e botânicos, trabalham juntos, para preservar um jequitiba rosa, de 15 metros de altura, que deveria ser sacrificado, por conta do traçado da linha 2 - verde do Metrô paulista.
O resultado deste esforço conjunto é que inclusive o projeto do metrô foi alterado, para poder manter a sombra frondosa de uma única arvore, localizada na praça Padre Lourenço Barendse, ma Vila Prudente.
"Das pranchetas dos arquitetos, dos engenheiros e dos botânicos, saiu um projeto, nunca antes imaginado, que deve ser realizado pelo metrô." Escreve o jornalista Gilberto Dimenstein no Jornal Folha de São Paulo do dia 12 de março.
Aqui nossos técnicos se esforçam em imaginar o jeito mais fácil de derrubar tudo, quanto antes, com a maior celeridade, porque a eleição esta a volta da esquina.
o link com o texto completo é este http://www1.folha.uol.com.br/folha/dimenstein/colunas/gd120308.htm



